Sábado a noite, uma noite fria, um sábado frio de carnaval. Chuvoso, triste… muito triste…
Estou a dois dias dos meus trinta anos, e carrego em meus ombros todo o fardo que significa isso.
A alguns dias, ouvi em algum lugar “os trinta anos representam um marco na vida de um ser humano. Representa o fim da juventude e o inico da maturidade”, eu vejo com olhos mais amargos, eu vejo como o fim de uma subida e o inicio de uma descida…
Eis ai uma coisa engraçada, como descer se pouco se subiu? Como esperar com otimismo os dias que hao de vir?
Vivi tantas coisas nesses últimos 10 anos, amei, sofri, sorri, chorei… como qualquer outro ser humano na face da terra… lutei, corri, tentei, e ainda assim me sinto vencido, me sinto perdido… Fernando Pessoa escreveu linhas sublimes ao escrever tabacaria “Vivi, estudei, amei e até cri, e hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.” Faço minhas suas palavras, hoje poderia recitar tabacaria inteiro e me sentir irmão de Alvaro de Campos, eu também sinto que fiz de mim o que não soube… tenho sufocado meus sentidos, tentado me entorpecer em dias vazios, dias em que pensar não é uma atividade bem vinda, dias de morosidade e lentidão.
Amei com uma força tão vigorosa que faria corar os mais ardorosos poetas, e com isso conquistei feridas que poucos aguentariam. Eu mesmo mal aguentei minha queda… poderia eu por esse único motivo, não mais amar…
Vaguei de sentimento em sentimento, me neguei a acreditar que deveria desistir… e após cada tentativa, após cada florescer veio um golpe, um golpe mais forte que o outro…
Não, não me julgo inocente ou vitima da vida… a penas um péssimo jogador, já disse isso em outras ocasiões, a vida é um jogo… mas me parece um jogo de cartas marcadas… um jogo em que fiz muitas jogadas erradas; blefei mal, joguei mal, quando pudia ganhar simplesmente corri do jogo, quando só tinha a perder apostei todas minhas fichas… Insisto, não me vejam como alguém que apenas lamenta seu destino, alias, destino me parece algo cada dia menos plausível.
Tive muitos bons momentos, momentos de risos, de alegria, de prazer, de satisfação, de saciedade… mas hoje olhando pra trás me dou conta que talvez não o tenha aproveitado da melhor forma… “carpe dien” foi uma lição que jamais aprendi direto.
O hoje me parece tão “pointless” sem propósito, eu me sinto sem propósito. Sei que deve ser um tanto quanto decepcionante, depois de tanto tempo sem escrever, me propor a escrever um texto tão “rasgado”… esta é minha única forma de colocar exatamente como me sinto, a dois dias de meu aniversário.
Amargo, vazio, seco, frio…
Joguei fora muitas oportunidades, tentei me convencer de que a vida de solteiro seria melhor, depois de ter me frustrado um certo numero de vezes… isso me tornou mais defensivo, mais amargo e mais frio… Certas vezes eu me agarro ao pouco que sinto e tento ser o que fui um dia, fui mais doce, mais ingênuo, mais puro… Dizem que me tornei mais forte, eu costumo dizer que me tornei mais forte… Na verdade criei uma casca, um escudo tão espesso que não sei se posso atravessa-lo.
Ser tratado como um coitado me perturbava tanto, que criei uma mascara para sempre parecer bem, sempre parecer forte, sólido, consistente, plácido… “Quando quis tirar a máscara, estava pegada à cara. Quando a tirei e me vi ao espelho, já tinha envelhecido.” E novamente Pessoa está certo… Não vejo no espelho o que era, e não sei o que vejo quando olho para o espelho…
Cada dia, afasto mais pessoas de mim, cada dia me fecho mais…
Tenho tentado, tenho tentado fortemente sinalizar, vez por outro jogo uma corda na esperança que alguém especial agarre e entre na minha vida… Invada minha vida contra minha vontade, tire o pó das coisas, coloque alguma musica, encha o lugar de vida, de entusiasmo de alegria… Mas a cada tentativa a corda é recusada e eu me torno mais distante…
“i don’t wanna die, sometimes i wish i never been born at all”, é o que está tocando agora, e eu entendo o sentimento.
Vejo as pessoas a minha volta, tão alheias a tudo, tão ignorantes do mundo a sua volta, tão desconhecedores de si e dos outros, tão felizes… só posso concordar, a ignorância É UMA BENÇÃO.
Não conquistei nada, não fiz nada, não construí nada… mas posso dizer que marquei, marquei muitas pessoas, ou ao menos tentei marcar o máximo de pessoas ao meu alcance. Fui ouvinte, vidente, conselheiro, amigo, responsável, amante… Fui o que pude ser, pra cada pessoa, tentei ser o que cada pessoa precisou de mim – calma a quem lê isso não é uma carta de despedidas para esse mundo cruel, só uma visita ao meu passado às vésperas do que posso vir a ser. – eventualmente fui opositor, maquiavélico e quem sabe tenha sido inclusive cruel algumas vezes, não posso dizer que me orgulho disso, mas contra fatos não há argumentos. Em minha infância fui infeliz, por ser desconhecido, por ser apagado, segregado, esquecido. Me tornei diferente; a isso tenho que agradecer ao Tolo, ele descreveu essa passagem de maneira que só ele poderia, ele me ensinou a mostrar pras pessoas o que eu poderia ser, ele me ensinou a sair do desconhecido, a formar meus laços. Sinto tanto a sua falta meu amigo, nesse momento queria muito que estivesse aqui.
Espero que me perdoem pela desconexão entre meus argumentos, estou embriagado de um sentimento que não ser descrever, mas me sinto como submerso até o pescoço em areia movediça, tentando me desvenciliar, e me afogando ainda mais. São cinco horas da manha, não tenho mais certeza do que escrevo, talvez volte a escrever linhas como estas, talvez vire meu próprio diário de bordo, se eu aprender a lidar com datas estelares…..rs